Conheça o FLoC , os novos cookies do Google, e como funcionam.

Nova política de coleta de dados promete aprimorar a experiência do usuário.

Os “novos cookies” são chamados de Federated Learning of Cohorts (FLoC), ou “Aprendizagem Federada de Coorte”, em tradução livre. Na prática, os FLoC pegam uma grande amostra de usuários com características semelhantes — sexo, idade, classe social, formação acadêmica, hobbies — para entender como pensam, agem e reagem a propagandas específicas. Ainda não há detalhes específicos de quais grupos seriam focados, mas dá para ter uma ideia com base no modelo de propaganda atual.

Modelo este que é feito de forma local, no navegador do usuário, e transmitido aos servidores do Google de forma criptografada. Em tese, a informação poderia ser interceptada no meio do caminho, mas isso exigiria a decodificação da mensagem, o que dificulta bastante o processo para hackers e criminosos virtuais.

A pronúncia do termo em inglês lembra a palavra “flock”, que significa “bando”, e a ideia é justamente essa: categorizar hábitos semelhantes para o direcionamento de conteúdo. Inicialmente parece um retrocesso, já que você perde o caráter individualizado do anúncio, mas na prática, isso se mostra muito mais efetivo sob a ótica dos resultados. Basta traçar um paralelo com as pesquisas eleitorais que entrevistam grandes grupos heterogêneos, por exemplo: quando conduzidas por entidades sérias, elas costumam antecipar o resultado das urnas com uma margem de erro bem pequena (2 ou 3% para mais ou para menos).

Em fase de testes, o FLoC passou a ser usado sem qualquer aviso para cerca de 0,5% da base de usuários do Chrome.

Isso pode ter sido uma estratégia do Google para evitar que as pessoas mantenham seus hábitos comuns e o resultado seja o mais fiel possível. Mas não há como negar que essa atitude – no mínimo questionável – permeia terrenos bastante instáveis da segurança digital e da transparência.

Pensando na LGPD em vigor no Brasil, ou na GDPR, lei equivalente para proteção de dados aplicada na Europa, ainda que o FLoC use técnicas para não “dar nomes aos bois”, se as informações coletadas forem reunidas, dá para montar o quebra-cabeça e descobrir quem é quem. Mas o questionamento pertinente é: seria interessante hoje em dia manter tantos dados sensíveis nas mãos de uma só empresa?

Além disso, o recurso não é fácil de ser desabilitado, já que envolve a desativação de todos os cookies de terceiros, o que pode impedir a navegação em vários sites por parte do usuário. Até o momento, não há sequer um tutorial do Chrome com orientações para impedir o novo tipo de monitoramento.

Essa foi uma das razões pela qual várias empresas desenvolvedoras de navegadores decidiram bloquear o FLoC em seus programas. Microsoft, Mozilla, Opera, Vivaldi, Brave e DuckDuckGo se uniram em uma ação sem precedentes contra o Google.

A maior perda sentida pode ter sido a do Microsoft Edge, o segundo navegador mais popular da web e um dos browsers construídos sobre a plataforma Chromium. “Nós apoiamos soluções com que levem em conta o consentimento do usuário, e não aquelas que sobrepõem as suas escolhas”, teria dito um porta-voz da empresa, em comunicado enviado ao site The Verge.

Vale lembrar também que o Google já responde a processos no mundo inteiro por acusação de monopólio e outras práticas anticompetitivas. Com uma tecnologia mais invasiva, e mais “indiscreta”, não estaria a gigante das buscas estabelecendo uma oligarquia mundial no setor de publicidade?